Abrir o corpo à tua sede, lavar as mãos no teu sorriso, escurecer na tua boca, amanhecer nos teus olhos, ser luz na tua memória, esvoaçar na tua alma, fazer do meu peito tua casa. Que é senão, viver-me através de ti?...


Caravan Palace



Se lhe dizíamos que a vida era feita de encontros e desencontros, desenterrava da sua caixa de argumentos uma mão aberta, dirigida à nossa face. Poderia, por exemplo, referir que um desencontro não é uma "efectividade". E vivia assim. Naquele mundo de argumentos onde a verdade era límpida, crua, nua e acima de tudo sua.

Essa era a verdade. A nossa verdade. A verdade dos encontros e desencontros, dos tempos e contratempos, do é e não é.



Liguei e logo desliguei. Não suportava a ideia de desfazer as linhas telefónicas com aquelas pedras ácidas que me corroíam sabe-se lá há quanto. Podia perfeitamente viver com elas, desde que nunca lembrado e o sorriso solto como arroz sem razão. Afinal, a minha linha era mesmo assim - de alta tensão.


David Bowie

Um fim: Todos os caminhos existirão e levarão ao mesmo sítio, e nós nunca percorremos todos.
Talvez um nos faça caminhar naquele de pedra... Sabes, aquele que tem um poste iluminado à noite mesmo junto à curva onde a inclinação se reduz à beleza das folhas secas caídas na berma?!
Esse mesmo! Onde as curvas foram desenhadas a lápis e pintadas da cor da água.


Caravan Palace


Beach House

Ias e voltavas. Fazias dos meus braços as margens da tua liquidez. Acreditavas na vida e no agora.
Esfaqueavas as nuvens. Era magnífico vê-las sangrar, golpeadas por ti.
Caminhavas descalça pelas cidades. Sabias que as calçadas também eram os teus pés.
Saltitavas de minuto em minuto. Conhecias o tempo e o espaço.
Fazias-me crer que eras eterna - e eu acreditava.
Na verdade, eras mesmo!... Quando ias voltavas.
E agora que não voltas... É porque não foste: És o mar adormecido na costa dos meus braços.



Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


José Saramago "Espaço curvo e finito"